quinta-feira, 17 de novembro de 2011

si nada nos salva de la muerte, al menos que el amor nos salve de la vida.

É que falta alguma coisa.
Falta frio na barriga, falta vontade de viver, falta inspiração.
Falta desejo, falta vida nessa morte, sobra morte nessa hora da vida. Mas é que não pode.
Falta estimar o auto.
Falta entender e se acostumar com o que não foi feito pra ser entendido. E desabafar.

Isso é só um desabafo. Não gosto de poesia, não faço poesia, é só um desabafo.
Mas ela e seus derivados me trouxeram de volta pra vida, na forma do mais belo dentre todos os jeitos de se sentir: amor.

domingo, 16 de janeiro de 2011

água também é mar

E eu tenho me perguntado todos os dias porque caem primeiro as casas, e depois as lágrimas, e depois as minhas lágrimas.
E me respondo com gotas. Temporais são só muitas gotas caindo juntas, e fazendo lágrimas cairem juntas.
Que fazem pessoas cairem juntas. E serem juntas.
Que faz a criança pensar que é brincadeira.
Que faz o flanelinha pensar que é um igual. E ser igual.
Que une uma corrente. Mesmo que seja correnteza.

A minha vida continua igual. A sua também.
E isso não te faz pensar em deus?

domingo, 17 de outubro de 2010

o gelo.

É daqui que eu escrevo. Sozinha, como sempre estive e como sempre estaremos.
Eu estive um mês inteiro fora do país. Aprendi mais do que durante todos os vinte anos, e embarcar naquele avião, com a sensação única de estar entrando em uma máquina que leva para outra dimensão, foi como ter nascido de novo; foi sentir pela primeira - e, e por isso, única - vez a minha própria solidão guiada pelos meus próprios pés.
Dentre as mais diversas sensações experimentadas de uma só vez, a maior e a que vai me acompanhar até o dia em que eu não estiver mais aqui foi a de liberdade. (Se ninguém reparou ainda, liberdade e solidão são mais ligadas do que quaisquer outras sensações.)
É olhar para os seus próprios pés e para tudo o que contribuiu pra que você seja o que é hoje - aquilo que chamam de lembranças, de mente, de razões que explicam cada um dos próprios pensamentos, e sem nunca esquecer que o que está acontecendo nesse momento também está contribuindo para o que vai ser do minuto seguinte - e finalmente notar o que estava sempre ali, só faltando mesmo perceber: que isso é o tudo, unicamente o que existe. E que é só isso o que vai te levar onde quer que você vá, em pessoa ou em pensamento.
Sozinho é como se nasce e como se morre, é sozinho que se faz escolhas, é sozinho que se vive, que se pensa, que surgem as ideias, é como se muda ou como se permanece, é como se torna ou não responsável pelos próprios atos, é como se senta e se reflete sobre a vida, ou como se deixa envolver pelos caminhos que se vai. Loucos e sãos são sozinhos, amantes e solitários também. Todos somos, e sempre seremos.
E é sozinha, como estive por um mês, e como estou agora, na companhia única e móvel do papel sendo queimado de leve pela brasa, virando cinza e caindo sobre o cinzeiro, que eu encontro, de novo, a liberdade.
Nunca foi tão bom ter a própria casa, ter o próprio chão, o próprio cigarro, sentir a própria solidão. Afinal, viver em conjunto é nada mais do que compartilhar as próprias solidões.

E eu vou acabar de ler meu livro. Se eu viver cem anos, serão cem anos só. Se não, serão menos ou mais. Ou será a eternidade de homens que vão e vem sempre sozinhos.

sábado, 16 de outubro de 2010

Só pra constar.
Que Rebeca chupa o dedo e come terra.
Eu rôo unha e choro, e ninguém se assusta.

domingo, 3 de outubro de 2010

eat pray love

Tem coisas das quais você passa a vida tentando se esquivar, mas não consegue. Uma delas é a minha paixão por filmes estúpidos, como esse, que me pegou pelo coração esse fim de semana e me deixou doida, pensando em tudo quanto é possível de se pensar ao ver alguém tentando arrumar a vida. E louca pro meu livro chegar!
Acho que ele vai no limite, que se fosse um pouco mais corria o risco de ser auto-ajuda e um pouco menos, de dar sono. Vale bem a pena.

Italy to eat, India to pray and Bali to love.
I think I would try Brazil to eat (Brazilian is the only food better than Italian), Greek to pray (for those who are not used to praying, a place with such a cultural legacy will do) and Ireland to love (cold weather, cottage in the mountains, fireplace, snow, hot chocolate and comforters - ok, I prefer to love in the winter). What about you?

Tanta coisa pra um só fim de semana...

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

benjamin button

O tempo é outro. E quando vê já foi, e ninguém se dá conta.
O tempo me assusta. No fim de cada dia eu não penso na ruga que quer surgir do lado do olho. No fim de trezentos e sessenta e cinco, as pessoas me ligam para garantir que eu não me esqueça desses dias que, feito o que tenha sido feito, não hão de voltar.
Não é o envelhecimento que me assuta; estar velho significa não estar morto. Me assusta o que passa e eu não percebo.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Dois dias e um shopping spree. É o que uma mulher precisa pra esquecer desde uma espinha na testa até o homem da sua vida.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

num carro de boi ir por aí

Descobrir minas.
Descobrir Minas.

Projeto de vida, sem pressa nem data marcada. Coisa que gosto é poder partir sem ter plano, e melhor ainda é poder voltar quando quero. De São João Nepomuceno para a vida.

Uma lista das cidades já visitadas. Uma maior das por visitar. Montanhas, serras, pedras, igrejas, trilhos, trens, café, pão de queijo, estrada de terra que só me leva, só me leva, nunca mais me traz.
E o coração aberto em vento por toda a eternidade.

Primeira parada: Três Pontas, 10 de Setembro de 2010. Barro, pedra, pó e nunca mais.

"Que vontade de não mais voltar
Quantas coisas eu vou conhecer
Pés no chão e os olhos vão
Procurar, onde foi
Que eu me perdi..."

sábado, 7 de agosto de 2010

cidadão do mundo eu sou

Não se engane. Só sinta. Sinta o veneno que te rasga um pedacinho por dia, por hora. Não se engane, não tem Deus, não tem outra vida, não seja hipócrita de pensar que vai pagar algum dia pelo que tem feito com os seus dias. Não se paga em morte, mas em vida. Se paga todos os dias; pelos dias que nós deixamos de ser quem somos, mas especialmente pelos dias em que somos exatamente quem somos.
As minhas desculpas, para que eu não pague depois, mas não há coração. Não há sentimento, não há lágrima, não há sequer olho. Mas não se entristeça - por fim não conseguiria - pois então nem se disponha a tentar. Está pagando bem. Todos os dias, os que passam e se vê, e os que passam e não se vê, persiste um pedacinho do fel.

Todos os dias, eu calo o meu pedaço que pensa em pagar. Mas como o seu lado que deveria nunca é por você calado, então hoje resolvi falar: bonito mesmo é se enganar.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

yo te quiero mucho

É que cada um é de um jeito, mas a gente fica sempre querendo ser igual a outro jeito. E a maioria das coisas importantes não são tão importantes quanto parecem e nem tão desimportantes quanto a gente queria que fossem.
O importante é o chá quentinho de maçã com canela de noite, adocicado com o cansaço do dia. Os olhos sedentos de carinho debaixo dos cobertores me esperando com calor exalante. A rede presa na parede, presente no quarto, presente de aniversário. E o ninho. E a saudade.
O resto não é importante.

"A maior riqueza do homem
é a sua incompletude.
Nesse ponto sou abastado.
Palavras que me aceitam como sou - eu não aceito.

Não agüento ser apenas um sujeito que abre portas,
que puxa válvulas, que olha o relógio,
que compra pão às 6 horas da tarde,
que vai lá fora, que aponta lápis,
que vê a uva etc. etc.

Perdoai
Mas eu preciso ser Outros.
Eu penso renovar o homem usando borboletas."
Manoel de Barros

sexta-feira, 18 de junho de 2010

fez-se, enfim, ao mar, à procura de si mesma.

Há poucos dias li no posfácio do livro "Os Sonhos Não Envelhecem" (de Márcio Borges, sobre o Clube da Esquina e seus personagens) o próprio Milton Nascimento contando um episódio nos EUA, em que alguém diz a ele que fazer arte é tocar a alma de quem não se sabe e nem onde. E eu nunca tinha ouvido nada sobre arte que eu tivesse concordado tanto.
Tive vontade de chorar, como tenho agora, e não simplesmente porque me atinge a metalinguística presente nessa fala e no momento que ela toca a minha alma, mas também porque, dentre tudo o que já foi dito sobre conceituação de arte, essa é a única que me satisfaz. É responder à arte usando a própria arte.

E é isso que eu sinto ao ficar emocionada com a morte do Saramago. É que ele, assim como vários outros, veio, se foi e nunca teve ideia da quantidade de almas que já tocou e das que ainda vai - provável que eternamente - tocar. E eu, daqui de onde ninguém me vê, acrescentaria que é arte tudo aquilo que é eterno. E disso pode ter certeza: meus filhos lerão, meus netos, meus bisnetos, ...
Até que chegue a minha hora, como chegou a sua.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

caixas de Pandora - 1


Ah...esse encaixotar da vida ainda vai render muitos e muitos escritos...
Mas o primeiro deles é que eu finalmente entendo o significado de "aquilo? ah...se perdeu na mudança..."

'Se perde na mudança' tudo o que fica pra trás, que não se quer na casa nova, que não se precisa na vida nova, o que se joga fora de propósito porque já não se pode mais olhar, e diz-se pros outros que 'se perdeu'. É que muita coisa mesmo se perde pelo caminho, mas outras não se quer mais, joga-se fora. Já fazia um tempo, é verdade, que aquela caixa enorme de cartas estava lá, parada e lotada, vez em quando revirada, mas como todo e qualquer passado: imóvel, imutável e carregada de lembranças.

Ah, claro, sim, sobraram alguns cartões. Que talvez tenham sua hora na próxima mudança.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

o preço de o dia r

"Tira esse ódio do coração, menina!"

da vontade repentina de dizer tudo que eu odeio!

eu odeio quem finge ser feliz.
eu odeio espírito de velho. [quero viver pra sempre, e isso só morrendo ainda criança]
eu odeio quem comercia a alma. [e perde o gosto do que faz todos os dias]
eu odeio ouvir crianças dizendo 'eu odeio ler'. [desacredita o mundo.]
e eu odeio os mestres que não odeiam isso. [desacredita a vida.] ['e há que se cuidar do broto, pra que a vida nos dê flor e fruto']


eu odeio ser paga. [ofereço instrução gratuita aos que sabem menos. e aceito a dos demais.]
eu odeio ser paga. [ofereço meus acordes aos que se dispuserem a ouvir. e aceito os demais.]
eu odeio quem não gosta de cachorro.

ou de Milton Nascimento.
eu odeio o interesse. e o desinteresse.
eu odeio quem prende, quem se prende, quem prende o outro, quem prende a mente, quem prende as correntes, quem prende o sentido.
eu odeio os sonhos. [aqueles que não vem nunca.]

sobretudo, eu odeio
esse ódio que me faz odiar. inchar
e chorar vermelho.

sábado, 29 de maio de 2010

estatuto universal


ASSIS, Machado de. Memórias Póstumas de Brás Cubas.

Talvez seja a melhor coisa que eu já li.

"Não importa ao tempo o minuto que passa, mas o minuto que vem. O minuto que vem é forte, jocundo, supõe trazer em si a eternidade, e traz a morte, e perece como o outro, mas o tempo subsiste."

quarta-feira, 19 de maio de 2010

do que eu já não quero mais saber

"As cartas continuam queimando. Eu tentei pensar em Deus. Mas Deus morreu faz muito tempo. Talvez se tenha ido junto com o sol, com o calor. Pensei que talvez o sol, o calor e Deus pudessem voltar de repente, no momento exato em que a última chama se desfizer e alguém esboçar o primeiro gesto. Mas eles não voltarão. Seria bonito, e as coisas bonitas já não acontecem mais."


ABREU, Caio Fernando. Holocausto.


Finalmente acabou. A sensação de que tudo foi deixado pra trás, e que já faz muito tempo, finalmente existe, e não há o que mude. 
Se eu tivesse acabado com isso antes, a dor teria sido menor. 
Se eu não tivesse colocado um ponto final na agonia, eu não saberia o que é estar bem.
Se...se eu não tivesse nascido, nem agonia teria existido - eu odeio subjuntivos. Talvez nesse ponto a gente concorde...será?


Vai, segue seu caminho. Sozinho como sempre. Ou cultivando a mentira de suportar tudo nas costas que você(s) pensa(m) ser verdade. O meu está se fazendo, cada dia com mais promessas pro próximo, cada um com mais promessas pro outro. E a sensação de estar encontrando construindo o melhor caminho, o mais feliz. 
Você não sabe o que é felicidade, não sabe o que é paz. Não sabe simplesfazer as coisas, não sabe nem mesmo se virar. Não sabe ser menos idiota, nem se adaptar. E eu uso toda a sua idiotice que sempre zombou da minha alegria para zombar de você, hoje; você é um exemplo clássico da alienação, da falta de pensamento, um dos motivos da minha desacreditância no homem. Mas sabe porque eu nunca te disse isso? 
Se não há em você a capacidade de pensar assim, não há o que eu diga que te faça pensar diferente.

sábado, 8 de maio de 2010

aula de semântica

É a definição de ser fraco.
A força é gradativa? Ou se é fraco, ou se é forte. Posso ser um pouco fraco, mais forte que ele, mais fraco que ontem, quase forte?

Eu discordo poeticamente quando a senhora diz que semanticamente ou se está vivo ou morto. A senhora não pode por acaso ser mais viva e o outro parecer mais morto? Não, não é auto-ajuda, senão não seria poesia, não é pra se aprender como ser mais forte e/ou mais vivo, não. É que a antonímia polar só funciona mesmo pra quem está mais morto do que os que estão mais vivos. E a senhora parece tão viva...que eu sei que no fundo a senhora concorda comigo.

E a senhora diz, 'mas você ta parecendo uma menina', isso também é polar? Ou eu sou uma menina ou eu sou uma mulher? Posso ser mais mulher do que ontem e menos menina sempre, e posso ser menina só agora? Posso ser fraca, só por hoje, eu juro...Amanhã tudo volta a ser polar. E eu volto a ser forte, e mulher. E resolvida, como a senhora bem gosta de falar.

Ou se chora, ou se ri? Posso chorar, só por hoje, eu juro...Amanhã tudo volta a ser seco.


quinta-feira, 6 de maio de 2010

e que me aperta o peito e me faz confessar...

Raridade encontrada.
Um dia me perguntaram quem era o maior de todos.
E são as letras detalhadas somadas a acordes complicados, quatro por compasso, criações aos 19 anos, malandragem carioca vencendo a censura, samba, beleza e olhos verdes, envelhecendo com tanto respeito.
Ou as melodias mineiras, e ainda mais mineiras, arranjos trabalhados, a voz de órgão, os olhos tristes e o boné, o boné do maquinista e o dele, os olhos negros, pálpebras e pupilas negras, é emoção, expressão, sentimento, é arrepio.

Não sei. E quero nunca saber, melhor mesmo são os dois juntos.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

outros outubros virão

"E o que foi feito é preciso conhecer pra melhor prosseguir..."

Arrepia até o espírito, orgulho de ser mineiro, orgulho de ser, simplesmente.
Vontade de viver, vontade de ser. Quisera encontrar aquele verso menino que escrevi tantos anos atrás...
O que foi feito, amigo, de tudo que a gente sonhou?
Falo assim sem saudade, falo assim sem saber; se muito vale o já feito, mais vale o que será...




O que foi feito devera - Milton Nascimento

PS: Melhor que isso, só acabar a música ouvindo "Alertem todos alarmas, que o homem que eu era voltou..."
"A voz de meu avô arfa. Estava com um livro debaixo dos olhos. Vô! o livro está de cabeça pra baixo. Estou deslendo." 


Manoel de Barros


Saindo do caos, do meio do caos alégrico e foi o que eu consegui...

terça-feira, 30 de março de 2010

vamos embora, companheiro, vamos...

Eu hoje escrevo a você.
Será que você me entende? Será que quando eu falo que não pode carregar o meu chinelo pela casa ou roer meus móveis você me compreende? Será que não está só pensando 'ela acha que eu ainda sou filhote, e não aceito não como advertência', e eu fico como uma boba tentando te educar?
É que você ainda não conhece o mundo. O mundo é duro, mas você nunca vai chegar a conhecer, a verdade é que pra você tudo é e sempre será simples, e o mais importante desafio do dia é qual móvel roer ou onde fazer xixi.
Ninguém te ensinou tempo, que tem hora pra dormir e hora pra acordar. Você acorda quando eu chego de madrugada, e dorme cinco segundos depois, e depois acorda com a corda toda às seis da manhã, querendo brincar. Pula na minha cama e lambe a minha orelha, será que você sente carinho? Como assim, ninguém te ensinou o que é carinho? Não te ensinaram amor também? E o que você sente quando eu chego cansada do trabalho e escuto suas unhas batendo no chão vindo na minha direção o mais rápido possível, pra saudar a minha chegada...Isso não é amor? Mas como você sente se nunca te ensinaram?
Ninguém me ensinou também, é verdade. Só batizaram. Um dia me disseram que quando eu gostasse muito de alguém eu devia dizer "eu te amo". Ou quando gostasse menos, "eu te adoro". Mas ninguém me disse o que fazer quando o que eu sentisse fosse diferente. Eu não gosto igual de você e ou do meu pai e do meu namorado. Mas pra todos eles se diz "eu te amo". As pessoas acham que elas podem nomear os sentimentos, mas pra quê isso, não é? Você nem sequer fala, e consegue me dizer direitinho quando tem frio, fome, sono, dor, alegria, tristeza ou carência.
E todos os dias eu prossigo a me lembrar por que eu sou sua dona e não você é meu dono - questionar se deveríamos ou não estabelecer essa relação de posse não vem ao caso agora; no meu mundo é assim que as coisas são, as pessoas não podem ver alguma coisa inferior a elas que saem espalhando que são donos, pondo nomes e impondo relações de domínio completo, até com gente tem gente que faz isso. Mas é que pensar faz de mim superior a você. Tirando que você não tem que trabalhar, que ouvir desaforos, que ir mal na prova, que que cumprir ordens ou comer menos, que brigar com o namorado ou com a mãe, que brigar por terra ou por dinheiro, que brigar, somente; e que, no seu mundo cruel, dormir, comer e brincar são suas tarefas diárias.
Sofrer complicando as coisas faz com que eu seja mais do que você. E é por isso que não há nada mais poderoso do que sua pureza, seus olhinhos curiosos e seu narizinho molhado pra me levar diariamente mais perto do seu pensamento, o mais simples de todos, aquele que os homens se esquecem que possuem, e lutam pra voltar a ter.


quarta-feira, 10 de março de 2010

sinfully delicious


Na verdade, não muda a vida de ninguém, e nem parece feito pra isso, de qualquer maneira (a verdade é que quem pensa como pensa não se permite questionar, e muito menos aceitar mudanças). Mas mostra de maneira bem bonita a possibilidade de ver a vida e sua simplicidade, sem preconceitos, sem conceitos, sem leis nem sofrimento, assim mesmo com tudo foi feito pra ser. 
Bom pra qualquer idade, qualquer pessoa, qualquer cultura. Mas fica mais delicioso se visto por um coração apaixonado...e com muitos bombons e trufas pra durante e depois!



Chocolat - Juliette Binoche, Judi Dench, Alfred Molina, Lena Olin and Johnny Depp

terça-feira, 2 de março de 2010

clube da estrada em sua ofegante epidemia

"Água de beber, bica no quintal
Sede de viver tudo
E o esquecer era tão normal
Que o tempo parava..."

São as montanhas que fazem toda a diferença, e nunca fizeram tanto. E o pão de queijo com café, e o barulho do trem, um 'uai' aqui e outro 'sô' por lá. E uma pureza nos sentidos, e o meu sentimento favorito: a simplicidade, em cada um dos gestos, e dos atos, e das casas, das ladeiras, dos morros, das paisagens, e do ésse puxado com orgulho no fim dos plurais.
Foi eleito o melhor carnaval de todos os anos: cinco dias de estrada de terra, montanhas, barro, poeira, sol, verde, trem azul, velho maquinista com seu boné, girassol da cor do seu cabelo, a cidade é moderna, cavaleiro marginal, maria fumaça não canta mais, você não quer acreditar, risadas, música, música, música, música, e pra mim uma coisinha ainda mais: amor. Ou pelo menos os dois amores mais frequentes.

E não tem melhor sensação do que a de estar em casa. Guardadas as devidas proporções, quero dizer, eu sei que não era exatamente a isso que Saramago se referia quando escreveu: "...dizia que todo homem é uma ilha, eu, como aquilo não era comigo, visto que sou mulher, não lhe dava importância, tu que achas, Que é necessário sair da ilha para ver a ilha, que não nos vemos se não saímos de nós, Se não saímos de nós próprios, queres tu dizer, Não é a mesma coisa." Mas eu bem acho que nada como um mês em Nova York pra me fazer eu me sentir tão mineira. 

Bem vindos de volta, de volta das férias, de volta pra casa, de volta à rotina, de volta à construção diária de todos os dias, de volta à página expositora de emoções que chamamos de blog. E vamos começar tudo de novo...




"Tinha sabiá, tinha laranjeira
Tinha manga rosa, tinha o sol da manhã
E na despedida, tios na varanda
Jipe na estrada
E o coração, lá..."

domingo, 24 de janeiro de 2010

sem nunca perder a mineiressência

Uma vez eu vi num filme um cara falando que numa cidade normal você passa pelas pessoas, esbarra nelas, elas esbarram em você, e que em Los Angeles ninguém te encosta. E que isso faz tanta falta, que por essa razão as pessoas batem mais de carro, pra sentir o signfiicado de bater, mesmo, de encostar. E isso acontece em New York também.

Já se vão vinte e quatro dias em um cidade gigante, e muito, muito atípica. Se me perguntarem algum dia sobre os hábitos dos nova-iorquinos, não sei se saberei responder: só um quinto das pessoas que andam nessas ruas são nativos dessa cidade, e o resto vem do mundo inteiro, do mundo inteiro mesmo! Pelo meu quarto no primeiro albergue passaram uma alemã, uma belga, uma argentina, uma canadense, uma americana (ou não seria estado-unidense? a coisa mais estranha é ver todo mundo aqui dizendo "Because here in America..." e pensar quando foi que você deixou de ser também americana), uma das Filipinas (sei lá como se diz quem nasce nas Filipinas aiuhaiuhaiuhaiu). Fiz uma amiga coreana nos primeiros dias, e depois um amigo australiano, conheci mais três alemães...Na minha sala de aula, uma italiana, uma chinesa, duas coreanas, uma norueguesa, uma uruguaia; no outro albergue, uma outra das Filipinas. E a pergunta que eu mais me fazia,  durante todos esses dias sozinha no meio desse bando de gente estranha, era se somos mesmo tão diferentes ou simplesmente tão iguais.

As duas primeiras semanas foram fantásticas. Foi como descer do avião direto dentro de um filme: todas as pessoas encapotadas, um frio de doer, o vento batendo no meu cabelo e todos aqueles prédios altíssimos e  toda essa gente importante trabalhando, eu conseguia ouvir a trilha sonora. E não adianta vir me dizer "esse é um país que eu não queria conhecer" ou "os americanos são idiotas, não quero ficar dando dinheiro pra eles", porque é uma cidade muito linda e com muuuuuitas coisas muito interessantes pra se ver, fazer, visitar, tirar foto, ou simplesmente sentir (e além disso, não tem um papel ou cocô de cachorro no chão, eles falam "sorry" e "excuse me" a cada dois segundos, ninguém passa na sua frente na fila nem fica com seu um centavo no supermercado.. não parece um excesso de educação pra nós?) Como mesmo me disseram "uma cidade não só pra ir, mas pra frequentar". E eu acrescentaria ainda, uma cidade com muito homem e pouco deus: põe em pauta a minha sempre frequente dúvida sobre a imensidão ilimitada do homem. O homem em Nova York é gigante, e ele não fez terra, céu, mar, luz, trevas; estava muito ocupado dando vida a arranha-céus iluminados, parques gigantescos, monumentos incríveis, metrôs infinitos e pontes astronômicas, muito além do que chegou pra nós aí no Brasil, e muito mais do que conseguimos imaginar sem nunca ter estado aqui.
Era um pouquinho de saudade, era lembrar de cada um nas milhões de coisas que se vê por dia, era fazer um intercâmbio entre o que já havia de lembrança que ficava em cada momento e em cada lugar e o que eu levava a mais dentro de mim, para contar para aqueles que estiveram lá em pensamento. E também, ter que dar conta de você mesmo sem que gritar "Mããããããããe!" fizesse efeito, foi uma aventura, com muito frio na barriga.

A terceira semana foi a mais divertida, afinal, o que essa cidade tem de melhor é diversão. Eu consegui me divertir sozinha, imagina com gente engraçada junto?
E teve também o aniversário...vinte anos são dignos de muita reflexão, não acha? São duas décadas, e nunca mais se faz a mesma idade, nunca mais se conta o mesmo tempo, e cada ano que passa é um a menos (pro encontro acontecer? haha não, não) pro que ainda falta fazer, e um a mais no que já foi feito.

E agora vamos pra última semana. É tanto rosto diferente que se vê todo dia, que a gente sente muita falta de ver os rostos de sempre. A vontade de voltar pra casa, de dormir na minha cama, de pegar ônibus, de descer o calçadão, de ir pra Universidade, de brigar com a mãe todo dia, de sair com as amigas, de almoçar na vó, de fazer unha, de ver os alunos, de ir pra São João, de fazer show já é parte de mim há alguns dias (e eu nem vou falar da saudade do namorado, porque essa já tava muito forte bem antes de eu vir, imagina agora...) e falta ainda uma semana pra eu chegar lá e começar a sentir falta daqui. Mas, na verdade, acho que a maior prova de que a gente é feliz com a nossa rotina é sair dela e sentir falta.

A conclusão maior é a de que eu poderia viver aqui pro resto da minha vida, mas jamais me sentiria em casa. Essa Minas que mora dentro de mim não deixa eu me sentir parte de nenhum lugar do mundo que não tenha pão de queijo com cafézinho, doce de leite e feijão tropeiro, montanhas e fazendas e árvores, cheirinho de terra, gente simples e desconfiada. No mais, eu quero voltar mil vezes, tomara que essa primeira viagem tenha sido a porta de entrada para conhecer muitos outros lugares do mundo inteiro; mas alegria maior será,  como tem sempre sido, a volta pra casa.

"It's the sense of touch. In any real city, you walk, you know? You brush past people, people bump into you. In L.A., nobody touches you. We're always behind this metal and glass. I think we miss that touch so much, that we crash into each other, just so we can feel something."
Det. Graham Waters - Crash 





quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

mande notícias do mundo de lá, diz quem fica...

Escrevendo diretamente do aeroporto de Guarulhos, em São Paulo, e, pode acreditar, nenhum lugar é tão inspirador quanto um aeroporto. Muita gente diferente, indo e vindo, trabalhando, esperando, embarcando... Difícil é estar a cinco horas de embarcar para Nova Iorque e ainda se lembrar de que daqui a seis será um novo ano, ao menos para o povo aqui no Brasil. E, cá entre nós, deve ser engraçado estar lá do espaço observando as queimas de fogos de uma em uma hora, começando lá no Japão - e se matar de tanto pensar porque já é ano novo em um lugar e ainda não é no outro, todos no mesmo mundo. Aliás, me lembra que acabei de vir do Rio pra cá de avião, e poucas coisas são mais bonitas do que estar em cima das nuvens e ver a maior cidade da América Latina como uma maquete, muito pequenininha.

Eu seria injusta se dissesse que esse ano não foi bom, principalmente tendo em vista que o único acontecimento que poderia se chamar problema se tornou o motivo de uma viagem dos sonhos; não há do que reclamar. Mas é que 2010 vem aí com tanta, mas tanta coisa pra acontecer... Parece que já fiz planos pra todos os meses, para cada um dos dias, e de repente 365 parece bem longe do que se diz suficiente.

E, no mais, hoje sim eu começo a ser também saudade. Também saudade, porque passo a ser também partida; só que os planos se parecem tão maiores, que a saudade se transforma numa vontade de que você estivesse aqui comigo, ou lá também; muito mais do que querer estar aí, prevalesce querer que você estivesse compartilhando cada segundo desses que serão únicos pro resto da minha vida.

Sair de Juiz de Fora às 8:30am, chegar no Rio às 11:15am, sair do Rio às 3:00pm, chegar em São Paulo às 4:30pm, sair de São Paulo às 11:00pm, chegar em Nova Iorque às 7:00am, rodando de aeroporto em aeroporto, ou, mais simplificadamente, viajar por vinte e quatro horas, me lembra da viagem que é viver cada um dos nossos chamados dias. Portanto, aos viajantes que ficam, me despeço com carinho: tô indo viajar!


terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Pronto, agora ele já foi.
Será que eu já mencionei que acho que quando a noite é boa o dia seguinte devia ser feriado? E quando o dia anterior é todo bom, então! Com direito a samba, churrasco, cachorro, conversas, choro, muita bebida até altas horas, e companheiros de vida.

Eu, na verdade, não tenho nada pra escrever. Pela primeira vez, esse post é só e exclusivamente para registrar o dia de ontem, a nossa "segunda-feira atípica", que, de tão recheado de emoções, não me desperta desejo de colocar em palavras. Na verdade, primeiramente eu não saberia, e depois, prefiro deixar tudo que a gente sentiu ontem na lembrança do próprio sentimento; escrevendo eu poderia me atrever a limitar, e tudo que eu quero hoje é pensar em ontem como um dia de compartilhamento, e de nenhuma limitação.

Agora ele já foi, deixando um presente lindo e as melhores lembranças de um último dia. Mas, dessa vez, eu também vou. E ainda não existe "metade de mim é partida e a outra metade é saudade". Eu sou toda saudade. E o que me consola? O tempo não existe mesmo...


"...dentro dos meus braços, os abraços hão de ser milhões de abraços apertado assim, colado assim, calado assim, abraços e beijinhos e carinhos sem ter fim..."

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

mágoa de criança

O maior conflito existente em escrever o cotidiano, o que eu me proponho a fazer, tem sido não expor as pessoas. É claro que, de uma forma ou de outra, eu consigo, lá e cá, fazer um ou outro texto ainda mais bonito por não poder simplesmente dizer "Fulano, eu penso isso, isso e isso de você", cheio de rodeios e metáforas; tudo bem, tudo em prol da poesia, mas no fim das contas eu acabo não escrevendo muitos e muitos sentimentos e acontecimentos, e morrem aqui dentro muitas coisas que, em palavras e fora de mim, seriam de muito maior serventia e muito menor dor.
Mas hoje eu optei por expor alguém. É que o risco vale, mesmo se ela mesma ler isso daqui. Aliás, se você estiver lendo, me desculpe pela exposição, mas as palavras estão explodindo aqui dentro.

Minha mãe me criou de um jeito muito particular, mas não sei se totalmente alienado. Ou vai dizer que ela não sabia que as roupas e sapatos de marca e muito mais caras que as outras que ela me dava guardavam essa diferença? Eu consigo acreditar que ela realmente tinha a intenção de não me deixar sucumbir nesse mercado que a gente vive, e me mostrar que muito mais importante do que isso, e em primeiro lugar, vinham o nosso caráter, o respeito por todas as pessoas, a simplicidade, a cultura, o estudo.
Certa vez, veio de acontecer esse episódio, que já data de dez anos atrás e nunca saiu da minha memória: eu tinha uma "amiga", uma das primeiras amigas, que só tinha roupas e sapatos caros e de marca, e eu não entendia, simplesmente; era mais que natural que eu não compreendesse a importância da marca daqueles objetos e o descaso com que eu via tudo aquilo. Era bem assim: eu com dez anos, uma criança mesmo, sem noção de dinheiro e recheada de outros valores, sendo apresentada a um casaco de couro "que a mãe dela tinha comprado não por 450 reais, mas por 280". Seu aniversário chegou e eu e minha mãe compramos a ela uma blusa, baratinha (aqui dentro, sou capaz de me lembrar da cor, da textura, do modelo e do preço, com detalhes), numa dessas lojas de galeria, e ela alguns dias depois me disse, com essas palavras (imagina, se eu consigo me lembrar perfeitamente da textura da blusa, como esquecer essas palavras?): "porque aquela blusa que você me deu, por exemplo, eu vou usar porque você me deu, mas eu jamais compraria ela se não estivesse na vitrine da Cantão." Se foi mágoa de criança, eu não sei, sei que meu pobre e terno coração, o mais terno de todos, modéstia a parte, nunca mais conseguiu olhar para aquela menina e não se lembrar dessa frase.

Essa digressão flashbéquica, do nível daquelas do LOST, possui a mesma razão de existir: tentar fornecer ao leitor um pouco do que me levou a ser impressionada hoje pelo que aconteceu hoje.
Depois disso tudo, e bem depois, na verdade, eu aprendi que roupa é um objeto social, e que é necessário se vestir bem, e muitas vezes difícil fazê-lo com roupas extremamente baratas; mas, eu juro, mesmo a partir de quando eu já tinha dinheiro para comprar a roupa do preço e da marca que eu bem entendesse, eu sempre mantive um mínimo de noção sobre o preço do que comprar ou não. E o ponto que eu quero chegar é justamente que isso também não é importante.

Um dia, eu te ofereci cinquenta reais pra que você fizesse um trabalho pra mim. E deixo aqui minha ressalva: não é que eu pense que posso comprar tudo no mundo, ou que posso colocar preço na educação, foi uma ajuda remunerada que eu te pedi. E você aceitou e não teve sequer a coragem de pegar o dinheiro. E me disse: "Vamos fazer assim: semana que vem a gente vai na rua e você compra um sapato pra mim!" 
Meu primeiro pensamento foi aterrorizante, eu imaginei um dos últimos sapatos que eu comprei, a cem, cento e cinquenta reais cada um - e olha que eu ainda seleciono o preço! Por fim, hoje nós fomos na rua, eu entrei numa dessas lojas que vendem um zilhão de sapatos e nas vésperas do natal estão sempre lotadas de gente comprando sandálias no crediário por 5 vezes de 10 reais (e que não me entendam mal, é uma DESCRIÇÃO OBJETIVA, e nunca, jamais, passaria perto do pejorativo), e paguei trinta reais por um tênis. Trinta reais é o que eu gasto numa noite normal de quarta feira numa pizzaria. Trinta reais é o meu almoço de terça no shopping. Eu já não passo mais um fim de semana com apenas trinta reais. Você sorriu de orelha a orelha, colocou no pé e saiu feliz pela rua, e nem se deu conta do turbilhão de pensamentos que me atingiram durante toda a tarde.

Não seria essa a real nobreza? Estar o tempo todo cercado de meios que te dizem o que (não) fazer, como (não) se vestir, como (não) se expressar, o que (não) comer, como (não) agir, e ainda assim nem se importar? Eu, nesse minuto, sinto muita vergonha de ter escrito tudo isso, de ter sentido tudo isso e ainda assim continuar agindo da mesma maneira (posso colocar a culpa na incoerência ambulante que fui-tenho-sido-sempre-serei? e publicar também quando escuto que eu deveria me importar com a quantidade de televisão que eu assisto que me torna pessimista e sonhando sempre com o que não posso ter? e quando eu implico que ele deixa comida no prato e ele me lembra que eu compro botas de duzentos reais?), mas mesmo assim, resisto, e publico, deixando aqui a minha declaração de admiração pela simplicidade que você, ao contrário de muitos de nós e de mim, inclusive, consegue manter diante desse nosso meio tão influentemente estúpido. Dentre os seus vários defeitos, como falar demais e o tempo inteiro, e ser ingênua de maneira atrapalhada, eu me sinto hoje reconhecendo a sua maior qualidade, a simplicidade, que é o que as pessoas mais vivem buscando sem conseguir enxergar. Aquelas que te dizem o que fazer, que esbanjam sua própria felicidade monetária e tentam nos convencer de que nossa ambição é ser iguais a elas, buscam, bem lá no fundo, a paz de enxergar, um dia, quem sabe, tudo o que gira em torno delas com a pureza de uma criança, com a mesma sensibilidade que você enxerga o nascer do sol, sem amargura, sem angústia, sem raiva, ou mau humor.

Me resta sentir pena, que é sentimento mais feio que se pode ter por alguém. E tomar como (mau) exemplo, pra que a minha ambição continue sendo sempre crescer sem perder a simplicidade (e muito menos a dignidade).

Escrevi muito. Deixo vocês com dois trechos de um texto muito maravilhoso de Rubem Alves, chamado "Sobre Simplicidade e Sabedoria", e recomendo a leitura aos que ainda possuírem um pingo de paciência:

"No crepúsculo, quando a noite se aproxima, o vôo dos pássaros fica diferente. Em nada se parece com o seu vôo pela manhã. Já observaram o vôo das pombas ao fim do dia? Elas voam numa única direção. Voltam para casa, ninho. As aves, ao crepúsculo, são simples. 
Simplicidade é isso: quando o coração busca uma coisa só."
"Diz Guimarães Rosa que 'felicidade só em raros momentos de distração...' Certo. Ela vem quando não se espera, em lugares que não se imagina. Dito por Jesus: 'É como o vento: sopra onde quer, não sabes donde vem nem para onde vai...' Sabedoria é a arte de provar e degustar a alegria, quando ela vem. Mas só dominam essa arte aqueles que têm a graça da simplicidade. Porque a alegria só mora nas coisas simples."

tente ser feliz enquanto a tristeza estiver distraída...

Meu velhinho ta ficando mais velho hoje!
Há dezenove anos me preparando para a vida e há sessenta e oito por ela espalhando alegria, e haja alegria! O meu maior orgulho é acordar com esse telefone que não pára de tocar, e são eles, os seus amigos, os velhos, os novos e os sempre presentes, que você construiu compartilhando toda essa alegria que existe desde muito tempo aí dentro.
Quero que viva muitos e muitos anos mais, que me ajude com o carro, que conheça a minha casa, que veja meus filhos (e por que não meus netos?), que tenha orgulho do que se tornou a sua menininha rapa do tacho.
Entre as brigas diárias, o nosso mau humor constante (guardadas as devidas proporções desse "nosso"), o silêncio matinal e a gritaria vespertina (não é isso que é família?), eu reconheço, eu tenho mesmo muita sorte!
Um beijo enorme de feliz aniversário! Amo você!


segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Férias.
Preguiça matinal.
Inchaço nos olhos.
TPM.
Almoço pequeno.
Preguiça vespertina.
Filme bonito. Muito bonito.
Choro.
Muito choro.
TPM.
Dor de cabeça.
Meio trabalho.
Meio férias.
Fim de ano.
TPM.
Namorado.
Sete meses.
Desabafo.
Choro.
Inchaço nos olhos.
TPM.
Internet e televisão.
Nova York.
Fim de ano.
Frio na barriga.
Preguiça noturna.
Sono.





Frio na barriga.
ou seria butterflies in my stomach?

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

na arquibancada da vida você se perder

Mesmo quem não me conhece reconhece que o samba corre bem na minha veia. Vem lá de dentro furando a mineirice e tendo a mesma proporção que o Rio na minha vida, tão pertinho, tão acessível, tão importante, tão bonito e tão violento. E também curioso.
Tem um tipo de samba que eu gosto bastante que é o que faz metáforas de carnaval. Tem várias, pra quem não conhece:

“Ela desatinou, viu chegar quarta-feira
Acabar brincadeira, bandeiras se desmanchando
E ela inda está sambando…”
Chico Buarque - Ela Desatinou

"Agora sei desfilei sob aplausos da ilusão
E hoje tenho esse samba de amor, por comissão
Fim do carnaval, nas cinzas pude perceber
Na apuração perdi você” 
Jorge Aragão - Enredo do Meu Samba

E eu sei que vocês conhecem muitos e muitos mais. Mas peço licença para registrar um que vem martelando na minha cabeça há um tempo. Se chama "Tamanco Malandrinho", e não conheço os autores, mas tem combinado bem com essa temporada do seriado.

"Vista sua mortalha azul turquesa
Mais bonita que a beleza
Mais humana que o perdão
Calce seu tamanco malandrinho
Pintado de azul marinho
Que é a cor da solidão
Transe, carnaval são só três dias
De cachaça e de folia
De alegria e emoção
Chore quando chega a terça-feira
Peito estoura de saudade
Estraçalha o coração
Que eu quero ver


Eu quero ver
Meu bloco na avenida sete encontrar com você
Eu quero ver
Na arquibancada da vida você se perder..."


Aiii não resisti, só mais um:


"Eu não sei bem com certeza porque foi que um belo dia
Quem brincava de princesa acostumou na fantasia
 
Hoje o samba saiu
Procurando você
Quem te viu, quem te vê
Quem não a conhece não pode mais ver pra crer
Quem jamais a esquece não pode reconhecer..."
Chico Buarque - Quem te viu, quem te vê
Ontem ela veio...e eu a deixei entrar. Sem querer, eu juro, mas ela entrou. Consumiu todo o meu corpo, toda minha mente, tudo o que abriga sensação e sentido. Foi vagarosamente subindo desde os dedos do pé até a ponta do último fio de cabelo e no fim quis descer molhando meus cílios e encharcando meu rosto; mas aí já era demais, o que restou em mim secou o olhar por vergonha. Ela já me tinha dominado o suficiente. Eu disse "chega, vai embora!", e eu disse, eu disse! Mas ela não foi...e está aqui, e até que eu me recomponha e a mande embora, ela aqui vai permanecer, morando dentro de mim.
"(...) a gente carece de fingir às vezes que raiva tem, mas raiva mesma nunca se deve de tolerar ter. Porque, quando se curte raiva de alguém, é a mesma coisa que se autorizar que essa própria pessoa passe durante o tempo governando a idéia e o sentir da gente; o que isso era falta de soberania, e farta bobice, e fato é."
E ninguém que não seja eu posso governar e mandar no meu sentir. Fica a dica.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

 "O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem. 
O que deus quer é ver a gente aprendendo a ser capaz de ficar alegre a mais, no meio da alegria, e inda mais alegre ainda no meio da tristeza"

Uma célebre frase do nosso mestre Guimarães Rosa pra ilustrar o que eu mais tenho ouvido (e sentido, não nego) nas últimas semanas: "to muito cansado" e "quero férias". A verdade é que um belo dia resolveram dividir o nosso tempo em anos, meses, dias e noites, horas e minutos, e assim resolvemos seguir e só permitir que o cansaço venha do acúmulo, e isso é sempre no final do que quer que seja; além da disposição, que só retorna no início, do que quer que venha a ser.

O signfiicado de terminar um ano? Eu por várias vezes já me perguntei se seria realmente "mais um ano" ou "menos um ano", e a conclusão é simples de que seria mais um na contagem da nossa idade e menos um no número dos que chegaremos a completar, sem ter absolutamente nada a ver com aquela história de que devemos sempre ver o copo metade cheio e não metade vazio, bla bla bla; um cálculo simples, como devem ser os cálculos, baseados na lógica conceitual que, mais uma vez, nós mesmos criamos. Só que, se eu resolver colocar um cadinho só de sentimento nessa análise, seria com certeza "mais um ano": um ano de muita coisa boa, de letras, de ich, de gente nova e inteligente e musical, de são joão, de radioleft, de muito estudo e muito trabalho, de muita leitura, de pouco sono, de nenhuma atividade física, de muitas noites, muito mais que dias, de pouca briga e de pouco choro. E não poderia nunca deixar de destacar o principal, que sustentou todos os outros, que a eles deu origem e, para permanecerem, coragem: esse foi, sobretudo, um ano de escolhas. E não é mesmo diante delas que a gente realmente se mostra?

E do próximo, nada, nada se sabe, exatamente como de todo o resto; quando se pensa assim, até mesmo acordar amanhã de manhã se torna mais um dos nossos "planos futuros muito distantes". Em resumo, vamos acabar as provas, entrar de férias, comprar presentes, ver "Esqueceram de Mim 25" na Sessão da Tarde, ter pelo menos três amigos ocultos, curtir o natal como de costume (pela religião, pelo feriado, pela união da família, pelos presentes ou pela comilança), esperar por uma semana a chegada do novo ano, estourar uma champagne e recomeçar tudo outra vez, como já vimos fazendo por alguns anos. E só me resta desejar uma boa renovação para todo mundo.


"Quem teve a idéia de cortar o tempo em fatias, a que se deu o nome de ano, foi um indivíduo genial. Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão. Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos. Aí entra o milagre da renovação e começa outra vez, com outro número e outra vontade de acreditar que daqui para diante vai ser diferente."

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

o amor é filme e deus espectador!

"O amor é filme
Eu sei pelo cheiro de menta e pipoca que dá quando a gente ama
Eu sei porque eu sei muito bem como a cor da manhã fica
Da felicidade, da dúvida, dor de barriga
É drama, aventura, mentira, comédia romântica"


Filme é uma coisa complicada, não?
Sobre o mesmo filme se ouve "gosto", "não gosto", "é meu preferido", "é uma merda", "é hollywoodiano", "é forçado", "é tosco", "não faz meu estilo" (essa é a pior de todas - pra mim, se diz 'é bom' ou 'é ruim', a subjetividade do que eu chamo de "MEU ESTILO" não pode ser levada em conta!), "é denso", "não faz sentido, acaba sem mais nem menos", "é muito grande" (essa também é boa!) e taaaantos outros. Isso, a meu ver, faz com que uma discussão sobre filmes se torne densa inclusive com as pessoas com que se tem mais afinidade, quase como discutir religião e futebol (me permite não dizer nada sobre futebol hoje? ou melhor, me permite deixar aqui o meu protesto pela vitória do Flamengo no campeonato?). Eu assumo: meu gosto para filmes vai dos mais consagrados aos mais idiotas. Eu gosto, sim, de comédias românticas idiotas e mentirosas, mas se cinema é arte, assim como as outras, não posso querer lutar contra a emoção produzida também pelas películas.

Esse fim de semana eu encontrei uma coisa que existe em comum nos grandes filmes que eu gosto: a junção de uma cena e sua música, em geral, as cenas finais. Não é a trilha sonora em si, que muitas vezes nem é boa, é, por vezes, uma música, que começa quando os olhos já estão inchados e o rosto todo molhado, e que dá um nó na garganta até subirem os créditos.

Quem não se lembra, em "Efeito Borboleta", de Evan queimando suas lembranças e depois encontrando Kayleigh na rua ao som de "Stop Crying Your Heart Out?" ("don't be scared...you'll never change what's been and done..." ironicamente)? Ou de William Thacker e Anna Scott na entrevista coletiva, quando ele pergunta por quanto tempo ela ainda vai estar em Londres e ela diz "Indefinetly" e começa "sheeeeeeeeeee may be the beauty or the beeeaast..." e os flashes em cima deles...Em "Crash", depois de toda aquela trama maravilhosa, a capa invisível, tudo se interligando, como a nossa vida mesma se dá todos os dias, vem a cena final, e sobe a música do filme "maybe tomorrow, I'll find my waaaaay home...", consigo sentir o nó na garganta nesse minuto, só de lembrar. Não deixo de fora a cena mais bonita de "Lisbela e o Prisioneiro", os dois no caminhão, tocando "o amor é fiiiilme...". E também não poderia faltar a grande inspiração para quem vos fala, Amélie e Mathieu, na motocicleta pelas ruas de Paris, ao som da valsa e depois de nos emocionar com seu (fabuloso) destino.

Um dia, quem sabe, eu faça uma lista dos meus filmes preferidos da vida inteira, sem hierarquia, por favor, porque se tornaria impossível. Eu me lembro de ter um dia acreditado na Lisbela, que disse que a vida da gente é como um longa-metragem, e alguém um dia ter me dito "Deixa de ser idiota, a sua vida não é um filme". E eu posso dizer, à maneira clássica de ignorar, que quando ouvi isso, o filme que eu construo todos os dias era um suspense com bastante drama, e hoje eu vivo um romance com pitadas de comédia e aventura. Ah, e, é claro, com direito a uma trilha sonora espetacular.


"É quando as emoções viram luz, e sombras e sons, movimentos
E o mundo todo vira nós dois,
Dois corações bandidos
Enquanto uma canção de amor persegue o sentimento
O Zoom in dá ré e sobem os créditos"

"O Amor é Filme" - Lirinha



sexta-feira, 27 de novembro de 2009

should I stay or should I go?

Quando eu te disse que metade lia poesia e a outra metade fazia a unha, não estava brincando. Você riu, achou curioso, engraçado, diferente, intrigante, massa, encorajador, perfeito, ou, bem provavelmente, na verdade, nem ligou, e no fim "sei que não preciso me inquietar, até segundo aviso você prometeu me amar".
Mas será que, na verdade, como você mesmo me disse, e mais de uma vez, você já sabia que eu era exatamente assim? Será que é do ser ser assim?
Construídos sob antíteses, dualismos, duplicidades, paradoxos, oposições, e (de que jeito evitar?) incoerência, assim somos todos, alguns não apresentando tamanhos abismos entre os dois lados, e outros não possuindo somente pequenas fendas. De dentro pra fora e, também, de fora pra dentro, desde o que nos motiva em uma escolha até o que fica, através delas, refletido.

A metade consumista de mim hoje se ociou por trinta minutos, e, acredite, esses trinta minutos foram o bastante para entrar nas Lojas Americanas e comprar uma barra de chocolate da promoção e uma revista "Cláudia" desse mês, com a seguinte manchete: "Tudo que você precisa saber para estar saudável e linda daqui a 20 anos". É verdade que a incoerência começa na compra - qualquer idiota sabe que pelo menos 30 200 das 230 páginas da revista viriam com dicas de alimentação e malhação. Depois da incoerência, a depressão de olhar todas aquelas mulheres cheias de plásticas, podres de ricas e que aparentam 20 anos a menos e pensar que eu, hoje, com dezenove, não faço nenhum dos tópicos como "malhar", "comer bem", "usar filtro solar", ou "tirar a maquiagem antes de dormir". Os gregos utilizavam a filosofia "mente sã, corpo são", mas, será mesmo que eles consideravam os gordinhos corpo não são porque a aparência não favorece?

E foi aí que começou o maior conflito, o conflito que perpassa todos os outros da minha vida; que me suga todos os dias, que não me deixa viver em paz: comer ou não comer, eis a questão.

Metade de mim realmente acredita que, mais importante que o corpo que se exibe, deve ser o que se cultiva na mente. E eu até chego a perdoar o descaso corporal que me assombra pensando nas horas desse quase já ido semestre que passei lendo, escrevendo, assistindo filmes e estudando, e não correndo na esteira. Mas a outra metade...tem sofrido com o reflexo desse descaso no espelho (trocadilho, yes!). E mais ainda com o pensamento de que cuidar agora é, com certeza, a chave para um futuro bem cuidado.
Os que me conhecem, nesse minuto estão pensando "essa idiota não é gorda e ta fazendo drama", mas pelo amor de deus. Não é drama, é o tempo. E, principalmente, o que um padrão imbecil criado por pessoas que acham que ser pele e osso é mais bonito do que tem gordurinhas salientes faz com metade de mim! E digo mais: longe de ser um protesto, encarem como um desabafo à minha fraqueza, que consegue perceber a pequeninisse desse conflito interno, mas não consegue não se abalar...

A metade que vos fala nesse minuto, frustrada pelo peso, pela angústia (hoje eu seria capaz de escrever um livro inteiro intitulado "comer ou não comer mais um pedaço" ou "acabar com a barra de chocolate ali na sacola ou não?"), é a mesma metade que não controla o dinheiro, que faz as unhas, que vai pra Nova York, que gastou rios de dinheiro para cortar o cabelo hoje mesmo, que usa botas de couro e que precisa sair de casa todos os dias se sentindo bonita e bem arrumada. A outra metade frequenta o ich com prazer, dá dinheiro aos mendigos, aprecia sentar na grama, lê e pensa sobre a vida e, mesmo na frase mais idiota ali de cima, estava ainda pensando em escrever um livro. Isso reforça ainda mais a teoria de que conseguimos unir as sensações e os pensamentos mais antitéticos em uma só mente, que, bem lá no fundo, é, realmente, uma só.

No mais, um beijo enorme de coragem e admiração às gordinhas sem complexo! A metade de mim que pensa (isso me lembra "você ainda pensa, e é melhor do que nada") acredita que vocês são reais exemplos de felicidade e vitória nesse mundo de aparências e estereótipos tão idiota.

PS: Já posso começar a fazer minha lista de New Year's Resolutions??? Começo, então, por a) praticar um esporte; b) comer menos porcaria. O mesmo início há...uns 5 anos, pelo menos.


domingo, 22 de novembro de 2009

onde eu possa ficar do tamanho da paz




"- Eu quero que a minha casa seja assim, que nem essa aqui...com esses móveis, um piano, vinil, todo mundo entrando e saindo o tempo todo...
- Mas vai ser mesmo." 

Planos futuros muito distantes.
Dentro de mim, eu pensava: "a nossa, a nossa casa". Fora dele, ele disse: "a nossa casa."

sábado, 21 de novembro de 2009

valeu, zumbi!



Porque vocês não precisam de cotas (e muito menos de pena) para que o resto do mundo se orgulhe da cor de pele que representa, hoje e ontem, a dor, o sofrimento, a fome, a miséria, a escravidão, as favelas, a violência, a maior torcida do país, e o samba, a alegria, a força, a superação, em todos os aspectos. 
Apesar das descendências italiana, espanhola e portuguesa, e da consequente falta de melanina, eu tenho muito orgulho de ter sangue de preto, e de alguma forma, eu tenho, você tem, nós todos temos; nem que seja sangue de criação - eu fui criada pela Ana - nem que seja musical, - o samba de preto velho corre nas minhas veias desde criança.

Dignos da minha pena são os que, tanto há 600 anos atrás, quanto ainda hoje, acreditam na diferença que implica superioridade de algum homem sobre o outro, sejam homossexuais, pretos, amarelos, feios, gordos, amputados, pobres. Mas esses são pra outro dia...hoje é o dia é de vocês. Parabéns e obrigada por terem chegado tão longe e também tão perto de um mundo mais justo, ou no mínimo, menos estúpido.

E obrigada também a minha mãe e meu pai, que desde pequenininha me ensinaram a tratar todas as pessoas igualmente e com respeito, a Ana e toda a sua família; o mendigo na rua; os funcionários da limpeza; e sempre da melhor maneira que se há para ensinar alguém: dando o exemplo.


E deixo vocês com uma bênção do branco mais preto do Brasil. Saravá!


"O morro não tem vez
E o que ele fez já foi demais
Mas olhem bem vocês
Quando derem vez ao morro
Toda a cidade vai cantar
É um,é dois, é três
É cem, é mil a batucar
O morro não tem vez
Mas se derem vez ao morro
Toda a cidade vai cantar..."

 Vinicius de Moraes

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

e eu amarei o barulho do vento no trigo

Hoje vocês dois na rua foram, de primeira, uma esperança e uma perda. Uma perda irreversível: água e óleo nunca se misturaram, não seria dessa vez - e eu me lembro de quando eu era criança e enchi um copo inteirinho de água e meia lata de óleo quase, só pra ver se funcionava. Se passaram cinco minutos e eu percebi que estavam certos. Se passaram dois anos e quatro meses e eu percebi que estavam certos. E uma esperança que ainda não morreu, talvez só por ter a condição de ser a última, de cruzar com você na (nossa) rua e ser tudo como era antes, tudo como nunca deveria ter deixado de ser, a gente sentado no meu prédio aos risos, ou comendo cachorro quente.

De segunda, um ganho e uma perda. Dizem que a todos os ganhos sempre acompanham perdas...
O fim de um sofrimento constante; de um dar infinito e de uma troca zero; da falta de cultivo do ser; de um acorrentamento da alma. E por que não se passaram só cinco minutos? Já não me lembro mais. Talvez porque bastou um "oi" não dado para dois anos (ou cinco minutos) serem apagados.
Mas hoje não é o dia do ganho - ah! esse têm sido todos os dias! -. Hoje é o dia da perda.

Quase irrecuperável. É como se aquele que eu conheci, com quem eu convivi e cresci junto, em meio a estudos, poesias, músicas, adedanhas complicadas, letras redondas, julgamentos, tríades, noites de cachorro quente, códigos, cartas, colas, vôlei...é como se tudo isso tivesse se perdido nessa sucessão cronológica e assustadora que chamamos todos os dias de tempo, e que cada um tivesse seguido o caminho oposto, como duas substâncias, que, de um dia para o outro, por razões justificáveis ou não (mas não menos compreensíveis, ressalvo), incluíram em suas composições elementos que as transformaram em outras duas, totalmente diferentes inclusive em polaridade, e que são não mais passíveis de mistura.
 Eu falei duas porque sei da minha parcela de culpa...não sei da dimensão dela, talvez, mas eu não sou para julgar ninguém. Você também deve ter suas razões para estar tão diferente, e, eu ainda te amo, se é assim que você quer ser daqui pra frente, se assim você está mais feliz do que antes, eu respeito e vou com você até o fim, você sabe. E esse texto não é uma crítica, ou foi feito para te atingir - até porque nem sei mais se você não acha o fato de eu ter um blog patético e pseudointelectual e coisadequemqueraparecer - , ou a fim de expressar meus pêsames a uma relação que nós dois sabemos estar andando na corda bamba da esperança. É um simples desabafo de saudade e vontade de ter meu velho amigo aqui de volta.

"Minha vida é monótona. Eu caço as galinhas e os homens me caçam. Todas as galinhas se parecem e todos os homens se parecem também. E por isso eu me aborreço um pouco. Mas se tu me cativas, minha vida será como que cheia de sol. Conhecerei um barulho de passos que será diferente dos outros. Os outros passos me fazem entrar debaixo da terra. O teu me chamará para fora da toca, como se fosse música. E depois, olha! Vês, lá longe, os campos de trigo? Eu não como pão. O trigo para mim é inútil. Os campos de trigo não me lembram coisa alguma. E isso é triste! Mas tu tens cabelos cor de ouro. Então será maravilhoso quando me tiveres cativado. O trigo, que é dourado, fará lembrar-me de ti. E eu amarei o barulho do vento no trigo..."

sábado, 14 de novembro de 2009

passar uma tarde...

"Quando eu de repente não era capaz de prestar atenção em nada do que você me dizia, foi que me peguei pensando que aqueles momentos eram os que jamais sairiam da minha memória e justamente os que eu sempre sonhei ter. E nesse fim de semana, por alguma razão especial, essa sensação se sucedeu infinitas vezes.
A começar pela sexta-feira (há alguns meses meus fins de semana têm começado nas sextas-feiras); não consegui ficar na aula de manhã quando ouvi o pandeiro cantando do lado de fora da janela... Falar no telefone foi só uma desculpa pra ficar te olhando, escondidinha, fazer aquilo que você faz de melhor, e que mais me encanta. À noite, uma chama reacesa não foi capaz de me provocar a menor reação, porque de repente você e tudo que a gente tem vivido se parece muito melhor. E de madrugada... ah, eu seria injusta - mesmo que me fosse concedido o dom de colocar esse tipo de sensações em palavras - ao tentar escrever o que acontece entre mim, você, o colchão e os lençóis, que faz chover e piscar a luminária, se é que você me entende...
No sábado, a necessidade de te deixar sozinho pra concluir seus estudos provocou em mim uma saudade que nunca havia surgido antes: uma saudadezinha, bem pequenininha, oposta àquela gigante, maior do mundo, que eu sinto quando você viaja e fica duas, três semanas fora. E, de repente, lá estávamos nós de novo, mas dessa vez tínhamos todo o tempo do mundo pra dormir e acordar infinitas vezes...
E esse texto começa aqui, às 3:30 da madrugada, com um mínimo de roupa, o silêncio e a escuridão quebrados, respectivamente, pelas brasas dos nossos cigarros e pela sutil luz do poste que invadia a sua janela; além das palavras que eu não seria capaz de me lembrar: o cenário era de um modo tão atrativo que as frases não tinham mais a menor importância.
Te acordar no domingo com café na cama, dormir, acordar, dormir de novo, acordar de novo, te ver fazendo o nosso almoço, ir embora, voltar e te ver sentado, de óculos na frente do computador, lendo, escrevendo e pensando; tudo como eu sempre quis que fosse. Dizem que nada pode ser perfeito, e eu acredito; quando as coisas começaram a ficar boas demais, um lado da minha vida desandou, e não sei sequer explicar a sensação de chegar à noite, exausta e chorando muito, e ter o seu colo, o seu carinho, ouvir tudo o  que você me disse todos os dias.

Quanto mais eu leio sobre as perguntas que nos fazemos todos os dias, mais eu me pego com um misto de sensações e pensamentos confusos, que começam numa citação do próprio livro: "E eu não quero que você seja uma dessas pessoas. Estou me esforçando ao máximo para familiarizá-la com suas raízes históricas, pois só assim você se tornará uma pessoa de verdade. Só assim você será mais do que um macaco sem roupas. Só assim você não vai ficar flutuando no espaço vazio." e terminam na grande questão sobre, se não sabemos de nada e de nada nunca saberemos, o que realmente vale à pena? E eu só consigo pensar que o amor em seu grau máximo, envolvendo de simples olhares a incríveis cenários, é a única razão que faz tudo realmente valer à pena. Te amo. E obrigada pelos melhores quatro meses da minha vida."
15 de Setembro de 2009

Eu uso hoje um texto de dois meses atrás para desejar feliz seis meses para nós dois e inclusive para o resto do mundo, que tem compartilhado de tanta alegria, todo dia, todo dia. Me pergunto até quando vou dizer "os x meses mais felizes da minha vida", ou se no fim dela direi "a mais feliz de todas as vidas".

No mais, já to bastante atrasada para a comemoração.


"assim como o oceano
só é belo com luar
assim como a canção
só tem razão se se cantar
assim como uma nuvem
só acontece se chover
assim como o poeta
só é grande se sofrer
assim como viver
sem ter amor não é viver..."





sexta-feira, 13 de novembro de 2009

pai, me ensina a ser palhaço?

"E o fogo com sua dança
Toda vida fez um som..."

"O fogo é uma mistura de gases a altas temperaturas, formada em reação exotérmica de oxidação, que emite radiação eletromagnética nas faixas do infravermelho e do visível. Desse modo, o fogo pode ser entendido como uma entidade gasosa emissora de radiação e decorrente da combustão."


Se vier com poesia pendurada no barbante, é transcedental.
Se for encantado, é TRANS-FI-GU-RA-ÇÃO.

Uma experiência que não me permitiu muitas fotos, que ao lembrar me arrepia; que não tem palavras, só sensações; e me cabe agora nada mais que o registro dessa noite mágica: Cordel do Fogo Encantado em Juiz de Fora, 12 de Novembro de 2009.

Ah, e também, é claro, cabe um agradecimento. Deixo aqui a minha alegria alheia (ééé, igual quando a gente sente vergonha alheia, sabe?) pelo som desses meninos, que, ressaltando a maior surpresa da noite, são gente como nós, são pessoas que dormem, acordam, pegam ônibus ou dirigem, têm fome e tomam banho, são feitos de carne e sangue e água - e fogo.
E que produzem poesia, música, batuque, teatro, macumba, cordel, arte, encanto, sensações - será que juntando tudo isso eu consigo outro elemento que não o fogo?

PS: Deixo aqui também registrada a minha mais velha paixão: me lembro, ainda criança, eu guardava uma caixinha de fósforos dentro da minha gaveta, e quando ficava muito nervosa, acendia um palito e olhava o circo pegar; e o cheiro me acalmava, e a mágica daquela imagem quente que surge do nada e pro nada volta (será que consegui alguma semelhança com a nossa própria efemeridade?), que ali durava segundos, eram os segundos de mais grandes (sic) sensações. Vermelhas, amarelas e quentes.

Muito obrigada pela maravilhosa noite de ontem. E pelos dias passados também.




"E a lona rasgada no alto
No globo os artistas da morte
E essa tragédia que é viver, e essa tragédia
Tanto amor que fere e cansa"

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

depois do final feliz...

Um belo dia, eu fui apresentada a essa história e a partir desse dia sempre achei que todo mundo devia ler. É um pouco grande, tem gente que tem preguiça, mas é tão bonito...


O Sabiá e a Girafa

O Sabiá

Sabia que o sabiá sabia assobiar? Dizia o meu avô. 
Sabia que o sabiá sabia avoar? Avoa, vô, avoa. E de ave ele entendia.
Mas o sabiá da minha história não sabia avoar. Assobiar ele sabia. 
Mas, que mais batesse as asas, o sabiá não subia.
Avoa, sô, avoa! O pobre não decolava. Pulava lá do galho, aterrizava na
bacia.
Não desistia o sabiá. Saltava, caía, pulava, caía, tentava, caía. Sabiá na bacia. 
À toa, sô, à toa. 
Todo mundo até ria, mas no fundo já sabia: o sabiá não sabia avoar.
Vivia a assobiar seu apetite: comer o ar, caber no ar.
Passar por cima das casas, das ruas, das gentes, do medo.
Passar de passarinho, passear devagarinho, sem pra onde nem caminho. 
À toa, à toa, a esmo. Só queria mesmo avoar.
Sonhos também havia. Asas arranhando a barriga das nuvens, vôos
atravessando a manhã vazia. 
Mas, entre as trapaças da brisa, o sabiá não saía.
Assobiava que eu nem te conto. Antes, o canto de tenor, a cor na noite escura. 
Depois, o canto de temor, a dor da falta de altura. 
Cantava que eu nem te canto, o sabiá desencantado.
Dias de sonhos rasantes, noites de sono arrasado. 
Mas ele, ressabiado, teimava em assobiar. 
Dorremifava macio, no galho ou na bacia, o desejo de avoar.
Um dia, o sabiá dizia, um dia eu consigo avoar.
 
 A Girafa

Girafa o meu avô não conheceu. Nunca teve o prazer, não foi apresentado.
Mas o velho deitado dizia: filho de peixe, peixinho é.
Isso vale pra outros bichos. Girafa também é sempre igual.
Nada fala, tudo espia. Sem um pio, sem um fio de voz. 
Só em riso e pensamento, ironiza o mundo no andar de baixo.
Mas a girafa da minha história era muito diferente. A muda queria mudar.
Não o mundo, mas a vida. Queria enganar o silêncio que lhe esganava a garganta.
Queria encolher a dor de não escolher as palavras. Queria desemudecer.
E não bastava soltar umas palavras no vento. Também sonhava em cantar.
Sonhava encantar o dia, molhar as tardes de poesia, melar o canto da noite com
doces melodias.
Prestava atenção no trovão, no temporal, na ventania.
Tentava imitar o azulão, o rouxinol, a cotovia. Mas a voz não derramava.
Então reclamava baixinho: para que tanta altitude, pra cantar só passarinho?
A girafa andava injuriada. Andava toda a cidade, do alto dos seus andares,
adorando a paisagem. Mas ficava na saudade o canto de homenagem.
Um dia, jurava a girafa, um dia eu consigo cantar.

O Sabiá e a Girafa

O encontro se deu por acaso, por acaso o deus dos encontros.
O sabiá resolveu chorar no alto de um pé de caju. 
A girafa se lamentava no baixo daquele pé. 
Uma árvore muito esquisita, mas desgosto não se discute.
Estavam os dois ali. Os dois no mesmo pé. Ela vendo o que não cantava.
Ele cantando o que não conhecia. 
Ele queria saltar nas alturas. 
Ela sonhava assaltar partituras.
E a dupla melancolia — ou foi a tal natureza? — tratou de cruzar os caminhos. 
A sabedoria do vento mandou o sabiá pro espaço. Pra ver se ele avoava.
Pra ver se acertava o compasso, o sabiá avoado.
Mas ele caiu de cabeça na cabeça da girafa. Silêncio. Sabiá assustado.
Contudo, depois do susto, o coitado gostou do que viu. 
Cada passo da girafa passeava ele no céu.
Cada girada do pescoço, um horizonte descoberto. 
E ele recomeçou a cantar.
A girafa ficou fascinada. 
Aquela voz afinada soltou sua cara amarrada.
Desfez a careta enfezada. 
Ofereceu então moradia ao dono de tal melodia, de canto tão doce e terno. 
E o canto do sabiá virou o seu canto eterno.
O sabiá ficou morando na cabeça da girafa. A girafa, namorando o canto do
companheiro.
Minha história acaba aqui. Mas a dos dois continua, sem platéia nem juiz,
depois do final feliz.  
Léo Cunha

Há quem diga que é uma história de amizade e solidariedade. Há quem diga que consiste em uma espécie de "psicologia de ensinamento" para que as crianças aprendam a lidar com as dificuldades da vida. Eu não sei não...pra mim, é muito simplesmente uma linda história de amor, que descreve metafórica e poeticamente aquilo em que realmente se baseia (ou pelo menos deveria) o amor: complementação. Encontrar no outro sempre um pouquinho do que em você não há e fornecer o que o outro procura; sem cobranças, sem esperas, com naturalidade e leveza; exatamente como os bichos lidam com a vida.

Ah! Além disso, usa como protagonista o meu passarinho preferido, porque canta bonito e é grande , e muitas vezes vermelho, e se for do papo amarelo, melhor ainda.  

"o sabiá no sertão quando canta me comove
passa três meses cantando, e sem cantar passa nove
porque tem a obrigação de só cantar quando chove"

"sabiá de laranjeira tu bicaste o meu melão
a fruta mais brasileira, mais uva, mais fruta-pão..."

No mais, uma boa noite.



"
eu sou, sou sua sabiá
o que eu tenho eu te dou
e tenho a voz
só tenho a voz
cantar, cantar, cantar, cantar...
"




domingo, 8 de novembro de 2009

such a perfect day.

Para o apreciador de música boa, é impossível não reconhecer o quão estreito tem ficado o nosso leque em se tratando da música da atualidade. A verdade e que já não se faz mais música como antigamente (a velha falando), muito menos quando o "antigamente" remete aos meus anos de música preferido, os 60's e os 70's; uma geração (ou duas) de artistas excelentes, esbanjando personalidade, estilo e musicalidade, e influenciando um pequeno e em fase de aperfeiçoamento* mundo inteiro.

Enfim, hoje seguimos procurando agulhas em um palheiro gigante, encontrando aqui e ali boas influências musicais, bons artistas, pessoas lutando pela musicalidade dentro desse baú imenso de porcarias desqualificadas que têm (certas coisas da nova regra do português ainda se mostram tão ineficientes para mim que eu prefiro usar tudo como era antes) chamado de "música", e tentando sempre salvar nossas crianças do lixo comercial, assim como, um dia, nos salvaram.

[*ressalvas para esse "fase de aperfeiçoamento"; depois de ter estudado muita história, a visão que eu consigo ter sobre o mundo dessa época é esbranquiçada, como se depois de tanto tempo de obscuridade, o povo conseguisse, finalmente, enxergar a luz no fim de anos negros, e se libertar de conceitos e estatutos antiquados e desnecessários. Só de maneira nenhuma pense que eu penso que os anos 2000 representam essa luz.]

Uma das maiores bandas mundiais em termos musicais, estilísticos e de personalidade, hoje em dia, é o Coldplay, e deixo bem claro que esse conceito é baseado em várias e várias referências, mas nunca no meu gosto, de modo que, ainda que o conceito musical deles não se interligasse com o meu, eu teria que respeitar as estatísticas. A possibilidade de vê-los no Brasil em fevereiro, junto com meu irmão, e logo nesse momento tão British que a gente anda vivendo, me fez ontem aceitar pagar R$500 se fosse preciso para ir na pista VIP e ficar bem pertinho dos caras. Todo esse dinheiro parece que não vai ser necessário, mas por um minuto eu tive orgulho da minha visão de dinheiro (na verdade, chega a ser um defeito não saber controlar os gastos). Deveria eu ter pensado "não, isso é dinheiro demais para esses capitalistas filhos de uma puta"?

Outro dia, tinha um sol perfeito brilhando lá fora, e o dia estava realmente muito, muito bonito. Eu subi pra caminhar na UF e essa música começou a tocar. "It's such, it's such a perfect day..." As circunstâncias se uniram de maneira tão favorável que me atingiram com tamanha particularidade que eu chorei de emoção, de alegria. Não é isso que a arte nos proporciona, não é disso que ela é intrinsecamente composta, desde o agente até o receptor? Não é em busca de emoções que passamos a nossa vida inteira, inclusive quem não se interessa por arte?

E não é para suprir as minhas buscas que eu trabalho e ganho dinheiro no final de cada mês? Para que eu chegue no fim da minha vida pensando "fiz tudo que queria ter feito"? Não é para gastar com as nossas necessidades que inventaram esse imperador impiedoso chamado "dinheiro"? E se eu tiver necessidade de emoção? E se eu tiver necessidade de arte?

Deixo aqui o clipe da música que me inspirou a esse post, e recomendo.
Artisticamente emocionante.



"Now the sky could be blue, I don't mind
Without you it's a waste of time..."

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

she wants a visa to ride...

Hoje é dia de curar essa ansiedade que me cerca há uma semana, mais ou menos: vou ao Rio tentar tirar um visto para embarcar para Nova Yorque, no dia 3 de janeiro de 2010. São tantos papeis, tantos formulários, tanto dinheiro, tanta burocracia! para chegar lá e talvez sequer olharem meus documentos e definirem - de maneira nenhuma subjetivamente, imagina - se me permitem (ou não) entrar in their country; e, se me permitem um palavrão, puta que pariu. (!) Já faz uma semana que eu não paro de pensar e falar nisso (e de comer, também, o pior até agora), e ontem, um acontecimento inédito: insônia. A minha pergunta é: será que hoje vem mesmo a cura?

Essa história de "autorização para entrar em um país" é muito doida. Considerando as palavras bonitas, creio que usaria "irracional" para adjetivar meu sentimento. Ou deveria eu considerar normal, correto e inteligente a obrigação de adquirir uma permissão para entrar em um pedaço de terra igualzinho ao que eu nasci e vivo? Seria errado se eu, ou qualquer outro ser do mundo, me cansasse simplesmente da vida onde nasci e por acaso resolvesse mudar a rotina e quisesse acordar em outro lugar, bem distante? É certo, então, que eu tenha que implorar formalmente por uma licença (do tipo "excuse-me" e não "license") e provar com todos os documentos que me são possíveis que eu não vou roubar o subemprego de ninguém, e que pretendo voltar, sã e salva, para os braços da minha pátria mãe?

Depois de uma inusitada discussão hoje sobre "o dinheiro move a vida ou não?" - e nunca deixando de compreender o quão forte essa frase pode parecer - me permito adaptar as palavras à minha presente realidade e parafrasear: "o dinheiro move o direito de ir e vir", e estou falando tanto de mim, pobre latina preta que sonha estudar a língua dos branquelos loiros e sardentos mais poderosos do mundo, e que corre, hoje, o risco de não ser permitida de entrar em um território como qualquer outro, afim de evitar que se corra o risco de uma super lotação de pobres latinos e pretos fritadores de hambúrgueres, quanto daquele mendigo preto e fedorento, a quem não se permite a entrada em um shopping center burguês, por representar um risco à tranquilidade burguesa. (parece que nem precisamos ir tão longe, não é?)

Mais uma vez, confirmo a minha teoria de que o pior sentimento gerado pelo homem, o real contrário do que chamamos de "amor" (que antecede o ódio e a indiferença), é o egoísmo. Alguém algum dia disse que aquele pedaço de terra possuía um DONO, e que, de então em diante, só entraria e sairia de lá quem o DONO autorizasse. Vocês conseguem ouvir? "Daqui pra lá é MEU, daqui pra lá é SEU, e não se fala mais nisso!" "Mas o João não tem terra, pobre coitado!" "Isso não é problema MEU, EU cheguEI aqui primeiro, essa terra é MINHA, ele, se quiser ou precisar, que venha trabalhar para MIM. E tem mais: quem quiser passar pelas MINHAS terras agora terá de pagar!"
E assim parece terem só começado os maiores problemas do mundo. Terminar com essa palavra "mundo", dentro de um contexto mundial onde "mundo" não mais existe, chega a ser uma honra.

PS: Mas na verdade, eu vou aproveitar que citei nosso amigo "amor" e deixar aqui o meu protesto pela ausência de consideração de sentimentos. Mentir os sentimentos se tornou um hábito tão frequente que não se acredita mais no que os outros dizem que sentem. Eu e meu namorado, hoje, com pouco menos de seis meses de namoro, nos gostamos, por certo, muito mais do que muitos cônjuges de dez, vinte anos de casados (ou de seis meses, por que não? todo mundo sabe da credibilidade zero do casamento, né). Entretanto, se eu dissesse ao moço do visto que mesmo que eu não tivesse faculdade, emprego e família, eu voltaria para o Brasil porque encontrei o homem da minha vida e jamais deixaria ele passar, a probabilidade de ele chegar a lágrimas de riso é de 99,9%; enquanto que, se eu entregasse a ele a minha certidão de casamento, meu visto estaria garantido. São as assinaturas, que andam valendo muito mais que o coração.