quarta-feira, 18 de novembro de 2009

e eu amarei o barulho do vento no trigo

Hoje vocês dois na rua foram, de primeira, uma esperança e uma perda. Uma perda irreversível: água e óleo nunca se misturaram, não seria dessa vez - e eu me lembro de quando eu era criança e enchi um copo inteirinho de água e meia lata de óleo quase, só pra ver se funcionava. Se passaram cinco minutos e eu percebi que estavam certos. Se passaram dois anos e quatro meses e eu percebi que estavam certos. E uma esperança que ainda não morreu, talvez só por ter a condição de ser a última, de cruzar com você na (nossa) rua e ser tudo como era antes, tudo como nunca deveria ter deixado de ser, a gente sentado no meu prédio aos risos, ou comendo cachorro quente.

De segunda, um ganho e uma perda. Dizem que a todos os ganhos sempre acompanham perdas...
O fim de um sofrimento constante; de um dar infinito e de uma troca zero; da falta de cultivo do ser; de um acorrentamento da alma. E por que não se passaram só cinco minutos? Já não me lembro mais. Talvez porque bastou um "oi" não dado para dois anos (ou cinco minutos) serem apagados.
Mas hoje não é o dia do ganho - ah! esse têm sido todos os dias! -. Hoje é o dia da perda.

Quase irrecuperável. É como se aquele que eu conheci, com quem eu convivi e cresci junto, em meio a estudos, poesias, músicas, adedanhas complicadas, letras redondas, julgamentos, tríades, noites de cachorro quente, códigos, cartas, colas, vôlei...é como se tudo isso tivesse se perdido nessa sucessão cronológica e assustadora que chamamos todos os dias de tempo, e que cada um tivesse seguido o caminho oposto, como duas substâncias, que, de um dia para o outro, por razões justificáveis ou não (mas não menos compreensíveis, ressalvo), incluíram em suas composições elementos que as transformaram em outras duas, totalmente diferentes inclusive em polaridade, e que são não mais passíveis de mistura.
 Eu falei duas porque sei da minha parcela de culpa...não sei da dimensão dela, talvez, mas eu não sou para julgar ninguém. Você também deve ter suas razões para estar tão diferente, e, eu ainda te amo, se é assim que você quer ser daqui pra frente, se assim você está mais feliz do que antes, eu respeito e vou com você até o fim, você sabe. E esse texto não é uma crítica, ou foi feito para te atingir - até porque nem sei mais se você não acha o fato de eu ter um blog patético e pseudointelectual e coisadequemqueraparecer - , ou a fim de expressar meus pêsames a uma relação que nós dois sabemos estar andando na corda bamba da esperança. É um simples desabafo de saudade e vontade de ter meu velho amigo aqui de volta.

"Minha vida é monótona. Eu caço as galinhas e os homens me caçam. Todas as galinhas se parecem e todos os homens se parecem também. E por isso eu me aborreço um pouco. Mas se tu me cativas, minha vida será como que cheia de sol. Conhecerei um barulho de passos que será diferente dos outros. Os outros passos me fazem entrar debaixo da terra. O teu me chamará para fora da toca, como se fosse música. E depois, olha! Vês, lá longe, os campos de trigo? Eu não como pão. O trigo para mim é inútil. Os campos de trigo não me lembram coisa alguma. E isso é triste! Mas tu tens cabelos cor de ouro. Então será maravilhoso quando me tiveres cativado. O trigo, que é dourado, fará lembrar-me de ti. E eu amarei o barulho do vento no trigo..."

5 comentários:

Andrey Brugger disse...

Estou, nesse momento, arrepiado!

Lindo demais o texto. Coisas assim que me fazem lembrar de muitas outras e concordar com o Caio Fernando Abreu:

" Me olhe, me toque, me diga qualquer coisa. Ou não diga nada, mas chegue mais perto. Não seja idiota, não deixe isso se perder, virar poeira, virar nada".

Beijos, moça! :)

Satya disse...

É tarde e eu to com sono mas se fala sobre quem eu penso, acrescento que até eu sinto saudade.
Saudade até de uma amizade que não existiu.

kinha disse...

Eternamente responsável e cativo ainda que a distancia e em silêncio.
;]

Vital disse...

amizade é mesmo isso...
precisa ser sempre construída
se não ela pára em algum lugar da vida e vira pedaço de passado.

anna disse...

sei como é isso. mas sabe quando a pessoa não mudou tanto, mas as mudanças é que se tornaram TÃO mais evidentes. acho que a sensação é a mesma.
mas adiciono outra: a sensação de que algo foi construído sobre pilares nem tão firmes.
eu já cansei de pensar o que é amizade. mas eu ainda continuo chamando pessoas de amigas e me colocando nessa condição.

gosto da sua sensibilidade.