sexta-feira, 27 de novembro de 2009

should I stay or should I go?

Quando eu te disse que metade lia poesia e a outra metade fazia a unha, não estava brincando. Você riu, achou curioso, engraçado, diferente, intrigante, massa, encorajador, perfeito, ou, bem provavelmente, na verdade, nem ligou, e no fim "sei que não preciso me inquietar, até segundo aviso você prometeu me amar".
Mas será que, na verdade, como você mesmo me disse, e mais de uma vez, você já sabia que eu era exatamente assim? Será que é do ser ser assim?
Construídos sob antíteses, dualismos, duplicidades, paradoxos, oposições, e (de que jeito evitar?) incoerência, assim somos todos, alguns não apresentando tamanhos abismos entre os dois lados, e outros não possuindo somente pequenas fendas. De dentro pra fora e, também, de fora pra dentro, desde o que nos motiva em uma escolha até o que fica, através delas, refletido.

A metade consumista de mim hoje se ociou por trinta minutos, e, acredite, esses trinta minutos foram o bastante para entrar nas Lojas Americanas e comprar uma barra de chocolate da promoção e uma revista "Cláudia" desse mês, com a seguinte manchete: "Tudo que você precisa saber para estar saudável e linda daqui a 20 anos". É verdade que a incoerência começa na compra - qualquer idiota sabe que pelo menos 30 200 das 230 páginas da revista viriam com dicas de alimentação e malhação. Depois da incoerência, a depressão de olhar todas aquelas mulheres cheias de plásticas, podres de ricas e que aparentam 20 anos a menos e pensar que eu, hoje, com dezenove, não faço nenhum dos tópicos como "malhar", "comer bem", "usar filtro solar", ou "tirar a maquiagem antes de dormir". Os gregos utilizavam a filosofia "mente sã, corpo são", mas, será mesmo que eles consideravam os gordinhos corpo não são porque a aparência não favorece?

E foi aí que começou o maior conflito, o conflito que perpassa todos os outros da minha vida; que me suga todos os dias, que não me deixa viver em paz: comer ou não comer, eis a questão.

Metade de mim realmente acredita que, mais importante que o corpo que se exibe, deve ser o que se cultiva na mente. E eu até chego a perdoar o descaso corporal que me assombra pensando nas horas desse quase já ido semestre que passei lendo, escrevendo, assistindo filmes e estudando, e não correndo na esteira. Mas a outra metade...tem sofrido com o reflexo desse descaso no espelho (trocadilho, yes!). E mais ainda com o pensamento de que cuidar agora é, com certeza, a chave para um futuro bem cuidado.
Os que me conhecem, nesse minuto estão pensando "essa idiota não é gorda e ta fazendo drama", mas pelo amor de deus. Não é drama, é o tempo. E, principalmente, o que um padrão imbecil criado por pessoas que acham que ser pele e osso é mais bonito do que tem gordurinhas salientes faz com metade de mim! E digo mais: longe de ser um protesto, encarem como um desabafo à minha fraqueza, que consegue perceber a pequeninisse desse conflito interno, mas não consegue não se abalar...

A metade que vos fala nesse minuto, frustrada pelo peso, pela angústia (hoje eu seria capaz de escrever um livro inteiro intitulado "comer ou não comer mais um pedaço" ou "acabar com a barra de chocolate ali na sacola ou não?"), é a mesma metade que não controla o dinheiro, que faz as unhas, que vai pra Nova York, que gastou rios de dinheiro para cortar o cabelo hoje mesmo, que usa botas de couro e que precisa sair de casa todos os dias se sentindo bonita e bem arrumada. A outra metade frequenta o ich com prazer, dá dinheiro aos mendigos, aprecia sentar na grama, lê e pensa sobre a vida e, mesmo na frase mais idiota ali de cima, estava ainda pensando em escrever um livro. Isso reforça ainda mais a teoria de que conseguimos unir as sensações e os pensamentos mais antitéticos em uma só mente, que, bem lá no fundo, é, realmente, uma só.

No mais, um beijo enorme de coragem e admiração às gordinhas sem complexo! A metade de mim que pensa (isso me lembra "você ainda pensa, e é melhor do que nada") acredita que vocês são reais exemplos de felicidade e vitória nesse mundo de aparências e estereótipos tão idiota.

PS: Já posso começar a fazer minha lista de New Year's Resolutions??? Começo, então, por a) praticar um esporte; b) comer menos porcaria. O mesmo início há...uns 5 anos, pelo menos.


4 comentários:

Andrey Brugger disse...

"Os que me conhecem, nesse minuto estão pensando "essa idiota não é gorda e ta fazendo drama""

hahaha...pois é! :P

Bom, você já tem gente suficiente pra te dizer que você consegue juntar beleza fisica e emocional, que alia isso tudo a uma inteligência sem fim!

Então, devore o chocolate da mesma forma que você devora as questões que realmente importam nessa vida!
:D

beijaoo

Satya disse...

Falaê se Rodin fez alguém gordo? E o homem vitruviano de Da Vinci? A beleza da nossa musculatura é atemporal e o padrão saudável existe desde que existe qualquer interesse pela medicina. Não é magro, mas não é lotado de gordura.

A mocinha no banheiro pode até ser bonita, mas não é saudável, mora aí o perigo em rebelar-se contra “estereótipos idiotas” e escolher ser gordo.
Ser gordo feliz um dia torna-se ser gordo doente. A OMS mostra pra gente que é verdade.
Além do mais, somos feitos de carne e acredito que cobri-la de gordura em demasia é feio, sim.

Sobre todo o resto... Amiga, a gente tem que viver no mundo que existe e enquanto vc continuar lendo poesia no Jean Louis David, all is well in the world. Claudia, não!

Vital disse...

"essa idiota não é gorda e ta fazendo drama"
AIEUHauIEHAUIEHauiehhiaE
to zoando, não se consumo por ter que inevitavelmente consumir!

kinha disse...

Eu me identifiquei totalmente!

Mas assim a gente vai levando! Quem sabe não devessemos só agradecer por termos encontrado um meio termo?! Nem uma saradona geração saúde sem cérebro, nem uma nerd feia.

Talvez, seja o equilibrio! hehehehehe!