Raridade encontrada.
Um dia me perguntaram quem era o maior de todos.
E são as letras detalhadas somadas a acordes complicados, quatro por compasso, criações aos 19 anos, malandragem carioca vencendo a censura, samba, beleza e olhos verdes, envelhecendo com tanto respeito.
Ou as melodias mineiras, e ainda mais mineiras, arranjos trabalhados, a voz de órgão, os olhos tristes e o boné, o boné do maquinista e o dele, os olhos negros, pálpebras e pupilas negras, é emoção, expressão, sentimento, é arrepio.
Não sei. E quero nunca saber, melhor mesmo são os dois juntos.
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quinta-feira, 6 de maio de 2010
quarta-feira, 9 de dezembro de 2009
na arquibancada da vida você se perder
Mesmo quem não me conhece reconhece que o samba corre bem na minha veia. Vem lá de dentro furando a mineirice e tendo a mesma proporção que o Rio na minha vida, tão pertinho, tão acessível, tão importante, tão bonito e tão violento. E também curioso.
Tem um tipo de samba que eu gosto bastante que é o que faz metáforas de carnaval. Tem várias, pra quem não conhece:
“Ela desatinou, viu chegar quarta-feira
Acabar brincadeira, bandeiras se desmanchando
E ela inda está sambando…” Chico Buarque - Ela Desatinou
"Agora sei desfilei sob aplausos da ilusão
E hoje tenho esse samba de amor, por comissão
Fim do carnaval, nas cinzas pude perceber
Na apuração perdi você” Jorge Aragão - Enredo do Meu Samba
E eu sei que vocês conhecem muitos e muitos mais. Mas peço licença para registrar um que vem martelando na minha cabeça há um tempo. Se chama "Tamanco Malandrinho", e não conheço os autores, mas tem combinado bem com essa temporada do seriado.
"Vista sua mortalha azul turquesa
Mais bonita que a beleza
Mais humana que o perdão
Calce seu tamanco malandrinho
Pintado de azul marinho
Que é a cor da solidão
Transe, carnaval são só três dias
De cachaça e de folia
De alegria e emoção
Chore quando chega a terça-feira
Peito estoura de saudade
Estraçalha o coração
Que eu quero ver
Eu quero ver
Meu bloco na avenida sete encontrar com você
Eu quero ver
Na arquibancada da vida você se perder..."
Aiii não resisti, só mais um:
"Eu não sei bem com certeza porque foi que um belo dia
Quem brincava de princesa acostumou na fantasia
Hoje o samba saiu
Procurando você
Quem te viu, quem te vê
Quem não a conhece não pode mais ver pra crer
Quem jamais a esquece não pode reconhecer..."
Chico Buarque - Quem te viu, quem te vê
sexta-feira, 27 de novembro de 2009
should I stay or should I go?
Quando eu te disse que metade lia poesia e a outra metade fazia a unha, não estava brincando. Você riu, achou curioso, engraçado, diferente, intrigante, massa, encorajador, perfeito, ou, bem provavelmente, na verdade, nem ligou, e no fim "sei que não preciso me inquietar, até segundo aviso você prometeu me amar".
Mas será que, na verdade, como você mesmo me disse, e mais de uma vez, você já sabia que eu era exatamente assim? Será que é do ser ser assim?
Construídos sob antíteses, dualismos, duplicidades, paradoxos, oposições, e (de que jeito evitar?) incoerência, assim somos todos, alguns não apresentando tamanhos abismos entre os dois lados, e outros não possuindo somente pequenas fendas. De dentro pra fora e, também, de fora pra dentro, desde o que nos motiva em uma escolha até o que fica, através delas, refletido.
A metade consumista de mim hoje se ociou por trinta minutos, e, acredite, esses trinta minutos foram o bastante para entrar nas Lojas Americanas e comprar uma barra de chocolate da promoção e uma revista "Cláudia" desse mês, com a seguinte manchete: "Tudo que você precisa saber para estar saudável e linda daqui a 20 anos". É verdade que a incoerência começa na compra - qualquer idiota sabe que pelo menos 30 200 das 230 páginas da revista viriam com dicas de alimentação e malhação. Depois da incoerência, a depressão de olhar todas aquelas mulheres cheias de plásticas, podres de ricas e que aparentam 20 anos a menos e pensar que eu, hoje, com dezenove, não faço nenhum dos tópicos como "malhar", "comer bem", "usar filtro solar", ou "tirar a maquiagem antes de dormir". Os gregos utilizavam a filosofia "mente sã, corpo são", mas, será mesmo que eles consideravam os gordinhos corpo não são porque a aparência não favorece?
E foi aí que começou o maior conflito, o conflito que perpassa todos os outros da minha vida; que me suga todos os dias, que não me deixa viver em paz: comer ou não comer, eis a questão.
Metade de mim realmente acredita que, mais importante que o corpo que se exibe, deve ser o que se cultiva na mente. E eu até chego a perdoar o descaso corporal que me assombra pensando nas horas desse quase já ido semestre que passei lendo, escrevendo, assistindo filmes e estudando, e não correndo na esteira. Mas a outra metade...tem sofrido com o reflexo desse descaso no espelho (trocadilho, yes!). E mais ainda com o pensamento de que cuidar agora é, com certeza, a chave para um futuro bem cuidado.
Os que me conhecem, nesse minuto estão pensando "essa idiota não é gorda e ta fazendo drama", mas pelo amor de deus. Não é drama, é o tempo. E, principalmente, o que um padrão imbecil criado por pessoas que acham que ser pele e osso é mais bonito do que tem gordurinhas salientes faz com metade de mim! E digo mais: longe de ser um protesto, encarem como um desabafo à minha fraqueza, que consegue perceber a pequeninisse desse conflito interno, mas não consegue não se abalar...
A metade que vos fala nesse minuto, frustrada pelo peso, pela angústia (hoje eu seria capaz de escrever um livro inteiro intitulado "comer ou não comer mais um pedaço" ou "acabar com a barra de chocolate ali na sacola ou não?"), é a mesma metade que não controla o dinheiro, que faz as unhas, que vai pra Nova York, que gastou rios de dinheiro para cortar o cabelo hoje mesmo, que usa botas de couro e que precisa sair de casa todos os dias se sentindo bonita e bem arrumada. A outra metade frequenta o ich com prazer, dá dinheiro aos mendigos, aprecia sentar na grama, lê e pensa sobre a vida e, mesmo na frase mais idiota ali de cima, estava ainda pensando em escrever um livro. Isso reforça ainda mais a teoria de que conseguimos unir as sensações e os pensamentos mais antitéticos em uma só mente, que, bem lá no fundo, é, realmente, uma só.
No mais, um beijo enorme de coragem e admiração às gordinhas sem complexo! A metade de mim que pensa (isso me lembra "você ainda pensa, e é melhor do que nada") acredita que vocês são reais exemplos de felicidade e vitória nesse mundo de aparências e estereótipos tão idiota.
PS: Já posso começar a fazer minha lista de New Year's Resolutions??? Começo, então, por a) praticar um esporte; b) comer menos porcaria. O mesmo início há...uns 5 anos, pelo menos.
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